MENINO RABINO

Antropofobia judaica e o manifesto à união

3 Novembro 2008 · 6 Comentários

«A única vez que os Judeus estiveram unidos foi em vagões para Auchwitz, a caminho da morte»

Confesso que não me recordo se ouvi esta frase antes, mas dei por mim a dizê-la quando percebi que existem judeus que parecem dedicar parte das suas vidas a contribuir para a destruição de algo que deveríamos ter por sagrado: “Klal Israel”, isto é, a concepção de união entre a comunidade judaica universal.

Muitos livros se escreveram sobre o anti-semitismo e as suas origens. Muitas teorias se defenderam para tentar explicar este cancro que continua enraizado na humanidade. Mas poucos perderam tempo em tentar explicar porque existem judeus que dedicam a vida a destruir-se a si mesmo, a sua identidade e a sua ccomunidade.

As “birras internas” são tão velhas como próprio tempo e habitualmente um judeu aproveita os seus ditados para explicar as mesmas:

«É normal vivermos assim, afinal de contas: Dois Judeus, três opiniões»  

Mas este ditado famoso que deveria servir para retratar a milenar tradição talmúdica que moldou o povo judeu, serve agora para justificar as cismas e birras dentro deste mesmo povo.

Os Judeus sempre viveram melhor com o facto de serem diferentes dos outros povos que com as próprias diferenças dentro do seu próprio povo. Um exemplo fulcral é o ódio visceral entre os dois maiores movimentos religiosos do leste da Europa no século XVII. Hassidim vs. Mitnagdim, que poderíamos traduzir em português como “os piedosos” versus “os opositores”.

Com a chegada do Baal Shem Tov (Rabino Israel ben Eliezer), emerge na cena judaica do leste da Europa o movimento hassidico, que após a sua integração gradual acaba por se tornar maioritária nesta zona da Europa. Com a evolução de em movimento menos popular mas deveras pragmático e coerente, o Gaon de Vilna (Rabino Eliyahu Kramer) forma o movimento dos Mitnagdim e acabam por censurar as práticas hassidicas. O próprio Gaon de Vilna e os seus seguidores formaram um tribunal de lei judaica (Beth Din) e excomungaram os hassidim do judaísmo.

A amargura e animosidade entre os movimentos foram longe demais quando lutas físicas se travaram em Vilna para obterem a primazia dos referidos movimentos à comunidade judaica local perante a autoridade Russa.    

Ainda hoje judeus destes movimentos não rezam nas mesmas sinagogas nem estudam os mesmos sábios e autores. Preferiram ambos ir contra a vontade de D’us e apartarem-se da comunidade, criando divisões e muros de fragmentação que envergonham o nosso povo.

Estou certo que ambos tentaram fazer o que achavam por certo, mas esqueceram-se que a razão e julgamento perfeito residem somente no Eterno. A arrogância com que travaram esta luta levou ambos os movimentos a defender a tese de donos da razão divina e mestres do dogma judaico.

Mais recentemente as correntes ortodoxas e liberais cortaram por completo relações entre si, pelo que é mais comum convidarem-se líderes de outras religiões para diálogos inter-religiosos, que para eventos meramente judaicos em que todos os movimentos marcam presença e dialoguam entre si. Chegou-se ao limite de chacotear e defender para si o direito de dizer «Quem é judeu» e «O que é ser Judeu» com uma aversão primária e torpe a um seu semelhante.

Mas a forma mais perigosa de destruição da tal comunidade judaica universal é a forma como nos apartamos da mesma sem darmos por isso. A forma como caímos nas malhas da tão afamada “lashon hará” * faz com que plantemos ícones do mal na nossa própria casa. É comum que achemos difícil colocar os tefilin todos os dias de manhã para nos conectarmos com D’us, mas conseguimos facilmente “conectarmo-nos” com um amigo para discutir a última birra na sinagoga ou no clube judaico. E sem achar que com isso não estejamos a contribuir para nos destruir, continuamos a fazê-lo até se tornar um costume.

Os sábios que do Pirkê Avot (Ética dos Pais) fizeram questão de focar os perigos da crítica e do apartamento da comunidade, certamente cientes dos males que constituem para o Povo de Israel:

(…) Hilel disse: Não te separes da comunidade; não te sintas seguro de ti mesmo até o dia de tua morte; não condenes a teu próximo até ter estado em seu lugar (…) Pirkê Avot 2:4

É um fenómeno pouco estudado esta auto-flagelação com que “brindamos” o nosso judaísmo, mas talvez resida aí esta aversão ao ser judeu e à comunidade judaica, porque definitivamente, isto não é judaico.

É óbvio que é um mal universal e não exclusivamente judaico! Mas a nós foi-nos confiada a aliança de sermos como sacerdotes entre as nações. Quando deixamos de fazer a nossa função deixamos de ser exemplo e passamos de universais a misantropos.

Mas quem sou eu? Estarei também eu a ser moralista? Estarei também eu a querer ensinar os judeus a serem judeus? Estarei eu também a fragmentar com a auto-critica? Estarei eu também a ser profeta da desgraça?

Não sei! Mas se as perguntas constantes moldaram o Talmud e o nosso povo, prefiro ser vexado com as respostas a ser refreado pela passividade. Afinal de contas ser obstinado é também uma virtude quando defendemos os valores éticos e morais do judaísmo e como o Rambam dizia:

“O risco de uma má decisão é preferível ao terror da indecisão”

 

Glossário:
Lashon Hará – Expressão hebraica que literalmente quer dizer língua ferina ou que fere. o mesmo que “má língua”, “mexerico”, “fofoca” ou “bisbilhotice”. As regras éticas do judaísmo estabelecem no Talmud fortes restrições contra a má língua: não se podem proferir afirmações depreciativas ou difamatórias sobre quem quer que seja, quer estas sejam verdadeiras ou falsas; não se pode dar a entender afirmações depreciativas ou difamatórias; não se pode nunca dar ouvidos a afirmações depreciativas ou difamatórias contra terceiros. Segundo algumas interpretações rabínicas, estas regras derivam da importância dada às palavras como forças criadoras e percursoras da acção. Assim como palavras positivas geram acções positivas, também as palavras negativas darão origem a actos negativos. (este glossário foi retirado do blog Rua da Judiaria)

Categorias: Judaísmo · Opinião e comentário
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6 respostas até agora ↓

  • Embaixada de Portugal // 5 Novembro 2008 às 2:28 pm | Responder

    http://embaixada-portugal-brasil.blogspot.com/2008/11/palestras-sobre-diplomatas-portugus-e.html

  • eliezer shai // 5 Novembro 2008 às 10:08 pm | Responder

    triste verdade…
    De qualquer forma é Lashon haRa e não Lashon Chara (Chara seria a fonetica da palavra merda em hebraico, ou seja queria dizer Lingua de Merda e não Má Lingua!)

  • Marco Moreyra // 5 Novembro 2008 às 10:25 pm | Responder

    Oy vavoy!

    Pensei que se escrevia com “het” (ou chet) em vez de “hey”… curiosamente costumo usar “h” somente para o som gutural do “het”, mas influenciado pela maioria luso-brasileira escrevi assim!!! Estava mesmo convencido que era LASHON CHARÁ! Ups!

    Pelo menos aprendi a dizer (mais) um palavrão em hebraico. hehehe

    Abraço

  • Marco Moreyra // 5 Novembro 2008 às 10:29 pm | Responder

    Sendo assim vou corrigir no artigo…

  • eliezer shai // 6 Novembro 2008 às 9:14 am | Responder

    Não faz mal, o resto do artigo é muito bom, triste mas bom…

  • Duarte Sousa // 6 Novembro 2008 às 2:32 pm | Responder

    De facto há que lamentar essa divisão no seio da comunidade judaica. Por isso devemo-nos interrogar sobre quais são os factores fundamentais que levam a tal segregação entre os próprios judeus. Serão as diferentes interpretações da religião judaica? Ou será a própria religião judaica a fonte dessa segregação?

    Pessoalmente, sempre achei que a cultura judaica é muito mais do que uma questão religiosa. Existem outras dimensões a ter em conta, nomeadamente: a herança genética, a língua, a escrita, a música, a filosofia, uma história riquíssima, os valores da igualdade, justiça, liberdade e claro, uma incessável sede de conhecimento e busca pela verdade (mesmo que tal ponha em causa certos dogmas religiosos).

    Esses deviam ser factores mais do que suficientes para unir o povo judaico.

    Por isso pergunto: Até que ponto é a religião uma fonte de conhecimento verdadeiro e útil para os judeus?

    Sempre considerei determinadas crenças judaicas como um produto da mitologia. Refiro-me não apenas à ideia de criacionismo divino, mas também a outras passagens da Torah, que nos remetem para determinados acontecimentos sobrenaturais (ou trancendentais se assim o preferir) na história do povo judeu.

    O mesmo se aplica a certas crenças cristãs e islâmicas. A propósito desta questão, acho muito curioso que alguns padres ensinem hoje aos seus crentes que o Bereshit deve ser entendido como um texto mitológico, enquanto que a ideia de Jesus ter sido filho de uma virgem, de ter feito milagres, de ter morrido e ressuscitado é algo que deve ser tido como sacrossanto, e portanto, inquestionável.

    Será então racional acreditar sem qualquer base de fundamentação científica que um certo deus enviou o seu filho à terra para uma missão suicida, que este sofreu e não sofreu simultaneamente (dado que ele e esse mesmo deus são supostamente a mesma entidade) e que ainda ressuscitou? Isto faz algum sentido?

    Há quem diga que sim. Mas quem acredita inteiramente na história de Jesus não pode igualmente, por uma questão de coerência lógica, negar que Maomé foi o último profeta desse deus. Os argumentos invocados para negar tal crença serão fatais também para a crença cristã.

    O mesmo raciocínio poderá ser aplicado à diferença entre as crenças politeístas e monoteístas. Que provas temos nós para rejeitar vários deuses quando nós mesmos acreditamos num, ou vice-versa?

    Afinal de contas, estamos aqui a falar de um conjunto de crenças que se baseiam em proposições fanstásticas, que pelo seu carácter transcendental nem sequer são passíveis de ser testadas.

    Mas será que ao não acreditarmos em certas crenças religiosas, inclusivamente na crença de que existe um deus supremo, deveremos rejeitar todos os ensinamentos do Judaísmo ou de outras religiões? Será que é possível adaptar as religiões ao conhecimento moderno? Ou será que é aceitável reescrever determinados textos religiosos de forma coerente com a Ciência e os princípios da democracia, do humanismo e, inclusivamente, do ecologismo?

    Talvez uma nova religião, plenamente compactível com o conhecimento científico e com os princípios que aqui referi seja aquilo que falta para unir a nossa sociedade. Ou talvez baste apenas uma boa educação moral.

    Shalom

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