MENINO RABINO

O fim do capitalismo?

9 Outubro 2008 · 3 Comentários

O que faz a força da ideia ocidental é a liberdade, a democracia, os direitos humanos, a igualdade perante a lei “A História é uma coisa desagradável que só acontece aos outros”, escrevia Arnold Toynbee a propósito da convicção britânica, em finais do século XIX, da perenidade do seu próprio império. Esta frase é citada no livro O Mundo pós-Americano de Fareed Zakaria, recentemente editado pela Gradiva, como prelúdio à questão: será que a história também vai acontecer aos Estados Unidos? Ou, dito de outra maneira, será que, tal como o império britânico, a maior e ainda única superpotência mundial também entrou em fase de declínio?

À primeira vista assim parece. A crise alastra perigosamente, a América está ansiosa e com medo, o sistema político demasiado partidarizado e pouco eficaz. A crise tem inevitavelmente repercussões mundiais, a começar pela Europa, onde as soluções ainda são mais complicadas, tendo em conta a dificuldade de adoptar uma política comum. Como era de esperar, de todos os lados surgem profetas da desgraça, anunciando com secreto regozijo não só o fim do “império” americano, mas também a derrocada do “sistema” de uma forma geral, aproveitando para deitar fora o bebé com a água do banho.

Não é esta a opinião de Zakaria. Para ele, não se trata tanto do declínio dos EUA, como da emergência e ascensão de novas potências: a China e a Índia, mas também o Brasil e o México, a Rússia ou a África do Sul. Apesar de estarem ainda muito longe dos EUA, principalmente do ponto de vista político-militar, elas tendem a aproximar-se sobretudo do ponto de vista económico, com taxas de crescimento vertiginosas. Mas o que é talvez uma das argumentações mais interessantes no seu livro é que a ascensão dos “demais” é, em grande parte, uma consequência das ideias e da acção concreta norte-americana, aconselhando os países a abrirem os mercados, a liberalizarem a política, a desenvolverem o comércio e a tecnologia. Aconselhando a não recear a mudança e a aceitar os desafios, divulgaram os segredos do seu próprio sucesso, ajudando-os a tornarem-se bons no jogo do capitalismo. Revelaram pelo seu exemplo a principal chave do sucesso: uma sociedade que premeia a iniciativa, a criatividade e a inovação, só possíveis com uma forte dinâmica civil, um sociedade aberta à imigração, fonte de energia e dinamismo. É por isso que, apesar do sucesso chinês ou indiano, não há um sonho chinês, mas continua a haver um sonho americano.

Mas, tal como os sonhos, as realidades não são imutáveis e a actual crise, de consequências ainda imprevisíveis, está aqui para o lembrar. Será que está em causa a morte do capitalismo, como provocadoramente sugeria o título de uma mesa-redonda da SIC-Notícias esta semana? Como todos os intervenientes referiram, não é disso que se trata. A instabilidade é uma das consequências inevitáveis da liberdade e do desenvolvimento económico. Mas talvez esta crise marque o fim de um ciclo e de um modelo económico assente na completa desregulação dos mercados. Talvez esta crise seja também uma oportunidade para reflectir e corrigir o desajustamento notório entre a universalidade dos mercados, entre um capitalismo mundializado e os instrumentos políticos tradicionais assentes no estreito quadro nacional.

A Europa é um exemplo flagrante desse desajustamento e da incapacidade política de fazer face aos desafios colocados por uma economia cada vez mais interdependente. Só que essa incapacidade agrava dramaticamente os problemas. As sociedades europeias estão desmoralizadas, tendem a fechar-se, alastra o medo e a tentação proteccionista, agravam-se as tensões sociais e culturais, abre-se espaço para os movimentos xenófobos e populistas. A ascensão dos movimentos de extrema-direita em países como a Bélgica, a Dinamarca, ou mais claramente nas recentes eleições austríacas, em que, em conjunto, os dois partidos de extrema-direita obtiveram 29 por cento, representa mais uma revolta contra a impotência política do que uma afinidade ideológica.

Entre Março e Abril de 2008, um estudo mundial levado a cabo em 24 países pelo Pew Research Center revelava que o sentimento antijudaico e anti-islâmico tinha aumentado em grande parte dos países europeus, relativamente a anos anteriores – exceptuando a Grã-Bretanha -, atingindo o seu máximo em Espanha (46 e 52 por cento de opiniões negativas relativamente a judeus e muçulmanos respectivamente). À primeira vista podia-se pensar que esta rejeição tão elevada em Espanha estaria relacionada com o atentado terrorista de Madrid, mas os resultados mostram que há uma relação entre o sentimento antijudaico e anti-islâmico: o público que vê os muçulmanos desfavoravelmente também tende a ver assim os judeus. Mais uma vez, o que isto reflecte é o medo e a tendência de “enconchamento” de sociedades que mais do que nunca necessitariam de se abrir para fazer face aos desafios económicos.

Contrariamente a uma América ainda pujante do ponto de vista demográfico, devido em grande parte à sua capacidade de absorção de estrangeiros e imigrantes, a Europa entrou em espiral negativa, prevendo-se que em 2030 o número de idosos com mais de 65 anos duplique em relação a crianças e jovens com menos de 15. A única forma de evitar esta espiral seria aceitar mais imigrantes, mas as sociedades europeias não parecem ter nem o dinamismo, nem a capacidade de assimilação de pessoas de culturas diferentes.

O que faz a força da ideia ocidental é a liberdade, a democracia, os direitos humanos, a igualdade perante a lei. Nem sempre isso foi uma constante da história, mas esses são, entre outros, os princípios que lhe deram origem e que nos regem hoje.

Mas a história acontece de facto a todos. Os EUA ainda dominam o mundo, mas a unipolaridade está a desaparecer. Isso não é mau em si mesmo. Pelo contrário, pode contribuir para melhor enfrentar os novos desafios. A questão é saber se o Ocidente ainda tem a força e a vontade de se bater por aquilo que faz a sua essência. Como diz Huntington, não por ser universal, mas por ser única. 

 

in “Público” 09 de Outubro de 2008

Categorias: - Anti-semitismo · Judaísmo · Opinião e comentário · Política e cidadania
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3 respostas até agora ↓

  • The Celeb Buzz » Blog Archive » O Fim Do Capitalismo? // 10 Outubro 2008 às 3:26 pm | Responder

    [...] Esta frase é citada no livro O Mundo pós-Americano de Fareed Zakaria , recentemente editado pela Gradiva, como prelúdio à questão: será que a história também vai acontecer aos Estados Unidos? Ou, dito de outra maneira, será que, …[Continue Reading] [...]

  • Duarte Sousa // 15 Outubro 2008 às 3:16 am | Responder

    Acho irónico ver como alguns dos defensores mais acerrados do capitalismo selvagem, vêm agora apelar a uma intervenção do Estado na Economia, nem que esta se limite apenas a uma mera injecção de capital como solução temporária.

    Está visto que uma Economia sem a intervenção do Estado tende a tornar-se num ninho de especulação e de deterioração dos condições de vida da maioria da população.

    Quanto à perda de hegemonia por parte dos EUA, concordo com a análise de E.Mucznik. No entanto há que ter em conta que apesar desses países registarem taxas de crescimento económico bastante vigorosas, os níveis de desenvolvimento mantém-se baixos.
    Isto, porque o conceito, para além dos aspectos da dimensão, por norma abrange também factores de ordem social, política e ambiental.

    ” A instabilidade é uma das consequências inevitáveis da liberdade e do desenvolvimento económico. Mas talvez esta crise marque o fim de um ciclo e de um modelo económico assente na completa desregulação dos mercados. Talvez esta crise seja também uma oportunidade para reflectir e corrigir o desajustamento notório entre a universalidade dos mercados, entre um capitalismo mundializado e os instrumentos políticos tradicionais assentes no estreito quadro nacional.”

    Easier said than done.

    Para haver uma verdadeira regulação económica a nível seria ideal que todos os países os países cumprissem regras idênticas.

    Por exemplo, nos EUA e na UE temos assistido a um aumento da taxa de desemprego e destruição de empresas, sobretudo de pequena e média dimensão, pelo simples facto de que em países como a China, os trabalhadores estão sujeitos a salários bastante mais reduzidos (o que atrai bastante às empresas estrangeiras) e por outro lado, as empresas nacionais, que aproveitam-se destas e de outras oportunidades económicas que derivam de uma maior flexibilidade a nível da política cambial, alfandegária, monetária e orçamental conseguem competir em condições bastante mais favoráveis.

    Um outro problema suscitado pelo crescimento vertiginoso sdestes países é precisamente o aumento da inflação, pois a procura por parte destes países, não sendo correspondido por um aumento da oferta gera um agravamento dos preços dos bens e serviços.
    Claro que os agentes terem consciência deste facto, tornam-se especuladores, e são precisamente os novos produtos e mecanismos financeiros que possibilitam ainda mais esta situação.

    A inflação aumenta, e o BCE, face aos limites impostos, vê-se obrigado a aumentar as taxas de juro de modo a contrariar esta tendência.

    A questão é: até que ponto aguentarão os consumidores suportar estas taxas de juro? Sem dúvida que face a estas condições, muitos vêem-se impossibilitados de pagar os seus empréstimos, o que em seguida conduz a uma falta de liquidez por parte de alguns bancos (e nalguns casos, chegaram a falir inclusivamente).

    Como se não bastasse, existem muitos mais variáveis a acrescentar ao funcionamento da nossa Economia. O problema par aos economistas é mesmo esse. São tantas as variáveis, que é dificl conceber um modelo económico decisisvo e universal, sobretudo quando os vários paises seguem normas e dinâmicas de funcionamento completamente distintas.

    ” Entre Março e Abril de 2008, um estudo mundial levado a cabo em 24 países pelo Pew Research Center revelava que o sentimento antijudaico e anti-islâmico tinha aumentado em grande parte dos países europeus, relativamente a anos anteriores – exceptuando a Grã-Bretanha -, atingindo o seu máximo em Espanha (46 e 52 por cento de opiniões negativas relativamente a judeus e muçulmanos respectivamente)”

    Em relação a essa matéria, creio que os espanhóis sempre foram um país com forte tradição católica, o que por norma, está associado a um sentimento de antisemitismo. Basta ler o Novo Testamento e estudar um pouco a História da Igreja Católica para se perceber de onde provém esse sentimento.
    Afinal de contas trata-se de um país onde foi cometido um genocídio gradual contra o judeus até ao século XIX. Os episódios mais marcantes desta perseguição terão sido talvez os massacres em Toledo (no ano de 1355), e em Palma de Maiorca (no ano de 1391), sendo que no primeiro terão morrido cerca de 12 mil judeus, enquanto que no segundo, esse número ascendeu aos 50 mil!!

    É certo que terão existido razões de ordem económica e social (pobreza, ignorância, doenças), mas a base para este ódio contra os judeus provém da essência da religião católica.

    Ora, aqueles que ainda hoje manifestam esse tipo de comportamento não são mais do que a continuidade dos ignorantes selvagens de há séculos atrás.

    Felizmente a maioria dos judeus, têm vindo a tornar-se cada vez mais progressistas, sendo que grande grande assume hoje uma postura claramente secularista, sobretudo em países como os EUA e Israel.

    Outro facto que também conduz a uma maior assimilação dos judues, é a conversão à religião dominantes nos países onde estão integrados. Nos EUA por exemplo, o número de judeus convertidos ao Cristianismo tem infelizmente aumentado anualmente.

    Em Portugal e Espanha esta conversão foi forçada, e o facto é que muitos portugueses ignoram as suas raízes hebraicas. Uma verdadeira lástima.

    Agora quanto aos muçulmanos, a coisa muda de figura. Enquantos que a maioria dos cristãos e judeus têm ignorado algumas das mensagens violentas dos seus textos religiosos, tal já não se verifica na maioria dos países islâmicos.

    Enquanto que cristãos e judeus foram abrindo-se gradualmente a um maior espírito humanista e científico (chegando ao ponto de questionarem as suas crenças religiosas), as sociedades islâmicas pouco mudaram de há uns século para cá, a não ser a nível económico e tecnológico.

    Os inúmeros actos terroristas praticados por muçulmanos, que apesar derivarem em certa medida das determinantes políticas e económicas, são acima de tudo um reflexo das suas crenças teológicas.

    Da mesma forma que os cristãos recorreram à Biblia para justificarem o seu ódio e violência para com os judeus há uns séculos atrás, o mesmo sucede no caso dos muçulmanos, mas desta feita, com contornos algo diferentes.

    Claro, que existem muçulmanos “moderados”, mas tal estatuto só é possível de alcançar, ignorando-se determinadas passagens do Al Koran.

    O mesmo dir-se-á em relação à Torah e ao Novo Testamento. A diferença actual é que os cristão e judeus já evoluiram nesse sentido. Foram ignorando aquilo que hoje se considera pouco razoável (como apedrejar mulheres adúlteras ou pessoas de outros credos), apesar de muitos ainda manterem determindas crença infundadas.


    O que faz a força da ideia ocidental é a liberdade, a democracia, os direitos humanos, a igualdade perante a lei. Nem sempre isso foi uma constante da história, mas esses são, entre outros, os princípios que lhe deram origem e que nos regem hoje.”

    Será possível implantar esse valores nos países muçulmanos de forma pacífica? Parece-me dificil, pois tais liberdades contrariam claramente a crença islâmica.

    Talvez tais mudanças sejam possíveis, se efectuadas de forma gradual e discreta. É preciso afastar aquelas sociedades da sua religião através da propagação de formas de pensar mais racionais, seja a nível científico, económico, social, político etc.

    Esta afirmação pode parecer áspera para aqueles que defendem a liberdade religiosa, mas em meu entender quando determinadas crenças religiosas interferem de forma negativa com o funcionamento democrático e progressivo das sociedades, a religião em causa deverá ser eliminada.

    E já que falamos de liberdade religiosa e de crentes moderados, sugiro ao Marco que leia “O Fim da Fé” de Sam Harris.

    Shalom

  • Duarte Sousa // 15 Outubro 2008 às 3:20 am | Responder

    Ups! Lamento os erros de ortografia! Só agora reparei! É o que dá dormir pouco!

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