Uma lição dos últimos anos é que o desejo de modernidade não se traduz sempre no desejo de uma sociedade liberal
Passam hoje exactamente sete anos desde o atentado ao World Trade Center, em Nova Iorque, o acontecimento mais significativo das vidas de 80 por cento da população americana, segundo uma sondagem de 2007 do Instituto Zogby. O “11 de Setembro” tornou-se uma daquelas datas sobre as quais se diz que há um “antes” e um “depois”.
O que mudou no mundo desde o 11 de Setembro? Aparentemente tudo mudou para pior: a ameaça terrorista mantém-se, Bin Laden continua a monte e a Al-Qaeda não foi destruída; a situação no Iraque só muito recentemente começou a estabilizar e no Afeganistão os taliban não dão tréguas. Por outro lado, assistimos à escalada nuclear de um Irão integrista fomentando a violência e o ódio num Médio Oriente cada vez mais instável, o conflito israelo-palestiniano eterniza-se. Ao logo destes sete anos, o mundo assistiu a gravíssimos atentados aos direitos humanos no Darfur, no Zimbawe ou na Birmânia, perante a continuada impotência das organizações internacionais como a ONU. Também no ocidente europeu o 11 de Setembro teve consequências decisivas nas relações com as populações muçulmanas, aumentando o medo e a desconfiança mútuas: os sucessivos apelos à aliança das civilizações apenas revelam que se instalou o medo do “choque” que é efectivamente uma ameaça, nomeadamente nos países que se consideravam o paraíso do multiculturalismo, como os Países-Baixos ou a Inglaterra.
Mas talvez a mudança mais significativa seja o fim de um mundo unipolar dominado pela ainda única verdadeira superpotência, o declínio progressivo da força e influência ocidentais num mundo onde irrompem outras potências como a Índia, a China, o Brasil ou a Rússia, algumas sem grandes preocupações com a democracia, mas com altíssimos níveis de desenvolvimento económico e tecnológico e exigindo ruidosamente o seu lugar ao sol.
Verdadeiro, este panorama tão negro? Sem dúvida, mas há que ir mais longe. Em primeiro lugar, convém dizer que o terrorismo apocalíptico – e em consequência a Al-Qaeda – perdeu grande parte do seu poder de atracção e apoio entre as populações muçulmanas. Uma sondagem feita em 47 países pelo Pew Research Center em 2007 revela “o declínio acentuado na aceitação de bombistas suicidas”, em países tão diversos como o Iraque, o Líbano, a Indonésia ou o Paquistão. Neste último país, onde os atentados se sucedem, o resultado das eleições em Fevereiro de 2008 mostraram não só a rejeição de Musharraf, como também a rejeição dos partidos islamistas. O cruel assassinato de inocentes acaba assim por alienar o apoio da maioria das populações, mesmo em zonas onde os movimentos terroristas surgem relacionados com reivindicações nacionais ou étnicas, como na Palestina. No entanto, isto não significa que o perigo do terrorismo jihadista tenha desaparecido e que não possa causar grandes danos. Nem significa que o extremismo religioso e o fanatismo ideológico tenham diminuído. Muito pelo contrário, alastra um islão rígido e integrista que hoje se exerce essencialmente sobre os aspectos religiosos e culturais da sociedade, nomeadamente na questão da emancipação das mulheres. E que está a desenvolver-se no Kuwait, na Jordânia, no Egipto ou entre movimentos como o Hamas ou o Hezbollah, agravando o antagonismo e o perigo de um confronto com o ocidente, ajudado por um movimento significativo de conversões radicais ao islão.
Não é verdade, no entanto, que esta versão do islão seja dominante, nomeadamente entre a juventude e a população urbana. Nomeadamente no Irão e no mundo árabe emergem diversas forças de oposição. Talvez uma das mais corrosivas e espalhada seja a “ciberdissidência”: armada de um computador, de um telemóvel ou de uma máquina fotográfica, tem como objectivo quebrar o silêncio sobre os atentados aos direitos humanos. E nem a repressão por “publicação de falsas informações” e “enfraquecimento do sentimento nacional” tem conseguido calar esta forma de protesto e denúncia.
O desejo de viver numa sociedade moderna e livre da tirania é universal. É isso que leva milhões de pessoas a procurarem no mundo desenvolvido estabilidade política, oportunidades de emprego, cuidados médicos e educação que não encontram no seu país. Mas talvez uma das grandes lições dos últimos anos seja que o desejo de modernidade e desenvolvimento não se traduz forçosamente no desejo de uma sociedade liberal, caracterizada por direitos individuais e por um Estado de direito, nem a democracia liberal é condição de modernidade como a China e o Sudeste asiático o têm mostrado claramente. Como refere Francis Fukuyama, “o desejo de viver numa democracia liberal é algo que se adquire ao longo do tempo, muitas vezes como resultado de uma modernização bem sucedida”. O que pressupõe um Estado que funcione e instituições relativamente sólidas. Provavelmente um dos maiores erros do primeiro mandato da administração Bush foi procurar impor pela força o que só o tempo e a vontade colectiva podem decidir. Dito de outra forma, a imposição forçada de um regime não é a chave para uma transição democrática.
Isto não significa o declínio da ideia liberal. Esta continua a ser “a ideia mais forte e com maior apelo generalizado que existe”, continua Fukuyama. Mesmo os ditadores e autocratas sentem-se muitas vezes obrigados a fingir que respeitam as regras da democracia. Mas hoje vivemos num mundo em que a versão ocidental da história está a deixar de ser a única e a dominante. Não porque essa versão seja menos boa e atraente, mas porque existem outras que emergem em paralelo e com força redobrada.
Este é talvez o grande desafio que se coloca ao futuro presidente dos EUA: compreender que afinal “há história no fim da História”.
in Público 11 de Setembro de 2008